Para Sempre Alice

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Sensível, tocante e perturbador. Só quem vive na pele ou próximo de alguém diagnosticado com Alzheimer entende as crises, os conflitos, o medo e a impotência interpretada por Julianne Moore através de Alice Howard, personagem central do filme Para Sempre Alice. A produção ainda não estreou nos cinemas brasileiros, mas já rendeu vários prêmios a atriz, entre eles o Globo de Ouro, SAG Awards, BAFTA e nada menos que o Oscar 2015.


Apesar de não ter uma trilha sonora forte e uma fotografia que chame atenção, Para Sempre Alice é puxado pela brilhante atuação de Julianne Moore que encarna indubitavelmente uma mulher de 50 anos, doutora em Linguística pela Universidade de Columbia, mãe de três filhos e esposa dedicada que enfrenta uma batalha física e mental contra um tipo de Alzheimer raro e precoce diagnosticado em estágio inicial. O que mais impressiona em todo o filme é o fato de Moore não parecer imitar alguém que perde gradativamente a lucidez, mas de fato, alguém que a está perdendo.

O drama começa em uma reunião familiar de Alice com o esposo John (Alec Baldwin), os filhos Tom (Hunter Parrish) e Anna (Kate Bosworth), que está acompanhada do marido Charlie (Shane McRae), para comemorar seu aniversário de 50 anos. Linda e alegre, ela celebra a data e a brilhante carreira, que lhe permitiu ser a mais jovem professora de Linguística na Columbia e palestrante internacional.

Narrativa -
Construído em torno dos lapsos de memória de Alice, o filme apresenta desde o início pequenas falhas nas lembranças da personagem, como o esquecimento das palavras em uma palestra na Universidade de Los Angeles. Ironicamente, ela, por ser doutora na arte de se comunicar por meio das palavras, percebe que vai perdendo a capacidade de formular novos vocábulos. Em um dado momento do filme, a protagonista decide caminhar pelas ruas do Campus da Columbia e no trajeto assimila sua perda de localização. Movida a descobrir o que está lhe acontecendo decide ir a uma consulta neurológica.

É nesse momento que os diretores do filme (Richard Glatzer e Wash Westmoreland), a colocam em primeiro plano para ser entrevistada por seu neurologista. O recurso fílmico destaca as reações de Alice ao ser sabatina e não saber retomar as respostas dadas por ela mesma.

Compreendendo que suas melhores amigas, as palavras, estão indo embora, ela passa a utilizar alguns recursos para se manter sã, como anotar receitas em um quadro de giz na cozinha ou até jogar um aplicativo de caça-palavras no celular. É nesta cena que ela esquece a receita de um pudim de pão, iguaria que está acostumada a fazer há anos, e não percebe que já foi apresentada a namorada do próprio filho.


Diagnóstico -
Em sua volta ao neurologista com o marido, também professor da Columbia, recebe o diagnóstico de “memória esporádica e enfraquecimento totalmente fora de proporção para sua idade com evidências de redução nos níveis de função mental”. Ou seja, fica comprovado que ela é portadora de Alzheimer raro e familiar.

Apesar de John ser relutante em noticiar aos filhos a doença da esposa, Alice reúne a família e apresenta aos três filhos sua nova realidade e a possibilidade deles também serem portadores da doença, que no caso dela é hereditária. A partir de então, sua filha mais distante, Lydia (Kristen Stweart), que reside em Los Angeles para tentar alavancar a carreira de atriz mesmo não possuindo formação alguma, aproxima-se e os laços, antes afetados pela relutância da mãe em tornar a filha uma mulher de profissão digna como a dos outros filhos que são advogados e médicos, são reconstruídos.

Com isso, a Alice linda, maquiada e feliz dá lugar a uma mulher que se torna vítima de uma doença que não escolheu ter. Os trajes exuberantes e luxuosos que lhe vestiam passam a dar lugar a moletons e roupas largas. Os cabelos antes bem hidratados ficam desleixados e o rosto bastante desgastado. Ela é afastada das suas atividades universitárias e passa a viver reclusa dentro da própria casa.

Outro recurso apresentado pelos diretores no filme é a desconstrução de uma linha de tempo. Tudo passa muito rápido e sem que haja uma explicação. Tudo isto para que o expectador entenda a rotina de um portador de Alzheimer no dia a dia com seus lapsos de tempo, dificuldade de se situar e confusões mentais.

Também construído em cima de críticas a posturas tomadas pela sociedade que ainda não sabe lidar o Alzheimer, o filme apresenta uma cena em que Alice confessa preferir ter câncer já que, segundo ela, quando se tem esta doença as pessoas usam fitas rosas, fazem caminhadas, levantam fundos e fazem de tudo para que o canceroso não se sinta oprimido.

Motivada a lutar contra seus medos, ela decide dar um breve testemunho para pessoas que sofrem o Alzheimer. Em um discurso emocionante, ela salienta: “Quem nos leva a sério quando estamos tão diferentes do que éramos? Nosso comportamento estranho e fala confusa mudam a percepção que os outros têm de nós e a nossa percepção de nós mesmos. Tornamo-nos ridículos. Incapazes. Cômicos. Mas isso não é quem nós somos. Isso é a nossa doença. E como qualquer doença, tem uma causa, uma progressão e pode ter uma cura”. Aplaudida pelo público ela volta para casa e continua sobrevivendo as astutas perdas de memória que lhe fazem esquecer o nome dos filhos, como amarrar um cadarço de tênis ou até seu plano de tirar a própria vida quando já não conseguir mais responder as suas próprias perguntas arquivadas em seu inseparável celular.


Retirado do blog Manuscrito.

Italo Stauffenberg

Estudante de Jornalismo

Seis estudantes de Jornalismo compartilham informações sobre cinema, moda, saúde, beleza, comportamento, lazer, teatro, baladas, música, esportes e polêmicas. Todo o conteúdo publicado no blog O Mistério das Raposas é de autoria dos [futuros] jornalistas Arlan Azevedo, Eula Paula Belfort, Ingrid Cutrim, Italo Stauffenberg, Marcele Costa e Papito Lucas. Agradecemos a sua visita. Curta, comente e compartilhe. Volte sempre!

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